ESCAPISMO

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_ Eu quero é calma na alma, é ter paz de espírito e saber que eu sempre posso parar, retornar, refazer, encontrar uma saída tranquila.

Esta era a frase que Alice sempre trazia na ponta da língua, mas ela dizia muito mais do seu coração do que qualquer outra coisa. Era uma menina pacífica, faceira, mas muito mais introspectiva. Caminhava sonhando e respirava pensando.

Amava os sorrisos, principalmente quando dirigidos a ela. Mas, era a solidão que a energizava. Tão linda ela, com seus laços de fita presos aos cabelos e a felicidade enigmática que enchia seu olhar. O seu olhar, talvez soubesse que ninguém o leria.

Perde-se para ela era se encontrar. Sabia mais de amor do que da dor, mas reconhecia a dor como companhia. Sentia turbilhões, mas também vivia em calmaria.

E o que ela queria? Apenas viver, menina, mulher. Um peixe no oceano.

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DEIXE A PORTA ENTREABERTA

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Você pode procurar pela expressão “deixar a porta entreaberta”, certamente irá encontrar conselhos para que escolha entre fechá-la de vez ou abri-la completamente. Que essa ambiguidade não é algo emocionalmente sadio, que é preciso abrir mão do que não lhe faz bem. Sim, acho que concordo com tudo isso.

Mas, se deixar a porta entreaberta for o que te estrutura? Se dizer adeus for algo excessivamente rígido e inalterado para você? Se sua sanidade caminhar entre o 8 ou 80? São muitos “se”, e talvez a resposta de nenhum deles seja exata, fixa, concentrada em um polo.

Você pode se perguntar qual o porquê de não conseguir fechar a porta, ou claramente deixá-la aberta. Mas, o não conseguir também é uma resposta. 

Posso precisar dos raios de sol que entram por ela, em suas modéstias e suavidades. Talvez precise do vento que passa sorrateiro e encha meus pulmões. Aromas podem escapar para dentro e me lembrar do que eu mais gostava. Nostalgia? Saudade? Necessidade? Nenhuma, todas ou alguma. 

Enquanto ela estiver entreaberta poderei vê através dela, poderei passar por ela…

Não estou aconselhando que suas portas fiquem entreabertas. Jamais! Você pode fechá-la, se assim quiser, você deve fechá-la. Mas, a minha continuará entreaberta, até que eu decida mudá-la de posição. 

DIAS DE OUTONO

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De todas as estações do ano o outono era a que lhe parecia mais nostálgica. Talvez fosse a promessa de um inverso, o frio que começava a chegar, ameno… Não havia mais o sofrimento das horas quentes, seu café com leite e canela já lhe parecia agradável a seu estômago, percorria o corpo e a deixava em paz.

Esses meses, para ela, eram os mais felizes do ano. Andava pelas ruas sentindo o cheiro das coisas e registrava todos eles muito bem organizados e devidamente classificados em sua cabeça. Sabia distinguir o cheiro das flores que nasciam nos jardins das casas, das folhas que pendiam dos galhos prontas para caírem, do café cappuccino que serviam na padaria todas as manhãs e tardes. Aliás, ela adorava essa tarefa diária de comprar seu café quando saía e voltava para casa. 

Ouvir o barulhinho de suas botas sobre as folhas caídas, este era um prazer inexplicável. Parecia que a cidade mudava de cor, de um vermelho alaranjado, um marrom amarelado. Ela amava essa dança visual de cores, ventos, cheiros e sabores. Sabores porque eles também tornavam-se mais significativos no outono. Era uma experiência peculiar. 

Mas, o que mais amava era chegar em casa, colocar sua bolsa e chapéu no cabideiro ao lado da porta, ir a cozinha e preparar sua terceira dose de café, voltar a sala, sentar-se na poltrona em frente a grande janela, tirar as botas, colocar os pés quentinhos ainda com as meias na poltrona e observar a rua. Nossa, que rua mais linda! Via o fim do entardecer, as cores surgirem e irem, as pessoas passando de volta para suas casas, outras saindo. O céu de outono também era o melhor, o por do sol, as estrelas…

 

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